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A política nas festas de fim de ano

O que fazer ao ter que se encontrar com amigos e familiares negacionistas, fascistas de sofá, etc.?

Transcrição do episódio

Os feriados se aproximam. É um dos momentos mais difíceis para qualquer pessoa envolvida com ideologias. É quando nos sentimos mais solitários, por termos que conviver com familiares e colegas de trabalho que ignoram os direitos dos animais, o aquecimento global, o fascismo tomando conta da política, o consumismo, entre outras coisas.

Imagino que você, como eu, também não queira estragar festas, nem fazer proselitismo. Talvez tenha até mesmo que ser extremamente flexível, frequentando lugares aos quais nunca iria, sorrindo amarelo para ideias que acha abomináveis, rindo de piadas racistas e até sofrendo certo grau de bullying por se alimentar ou pensar de maneira diferente.

Por um lado, essa é uma excelente oportunidade de exercer tolerância, de saber quando se calar e quando (e como) falar. Isso também ajuda a desenvolver certa humildade, nos momentos em que conseguimos, genuinamente, ouvir os outros e entender o seu sofrimento.

É um treinamento para aquilo que a política tem de mais fundamental: a convivência com as diferenças. E mais: o desenvolvimento da capacidade de negociar, de se ajustar às circunstâncias. De inspirar e até forçar a mudança, mas de maneira efetiva, em vez de gerar apenas mais resistência e conservadorismo.

Por outro lado, os feriados são uma sequência de dias extremamente cansativos, graças à gigantesca quantidade de energia (e de dinheiro) que temos que gastar para conseguir conviver com as formatações culturais em voga.

No meu caso, então — que sou vegano, budista, cientista político, escrevi um livro e nem tenho um emprego, digamos, “normal” — , geralmente, viro uma espécie de animal no zoológico, dando entrevistas para satisfazer curiosidades. Em especial, depois que as pessoas bebem e começam a perder inibições.

Espero que sua família não tenha fascistas de sofá, religiosos fanáticos, nagacionistas e bolsonaristas. Mas, morando no Brasil, há grandes chances de que você tenha que passar por essa turbulência cognitiva.

De novo, é uma grande oportunidade para não subir no salto e ouvir as histórias dos outros. De não congelar as pessoas nas suas formatações culturais. E, claro, também, de evitar pressupor que todos sejam uns idiotas, que não merecem receber a sua suposta “sabedoria”.

As festas de família podem ser um microcosmo do que acontecerá nas eleições do ano que vem: precisaremos saber como agir muito habilmente, navegar em meio a camadas de demagogia e desinformação, sem perder a capacidade de acreditar que, cedo ou tarde, pelo bem ou pelo mal, mudanças vão ocorrer. Até mesmo num país como o Brasil, que parece nunca mudar.

Nossa geração não deve ver muitas melhorias — ainda que, pasmem, já vimos algumas. Porém, certamente, as próximas vão sofrer as consequências da nossa ignorância. Será difícil olhar para as crianças e não pensar que estamos lhes presenteando com um Cavalo de Troia: um brinquedo de plástico e, simultaneamente, um planeta em mutação.

A vontade é de partir para saídas mais radicais. Ou até propor comemorações alternativas, tentando convencer pela criatividade. Mas, provavelmente, as pessoas não querem ouvi-lo, querem mais do mesmo: conforto e conveniência. Além disso, não podemos assumir a educação dos filhos dos outros, nem sair nos entrometendo no gerenciamento da psique alheia.

Então, paciência, paciência e paciência. Meios hábeis. Fazer o possível para mostrar que modos alternativos de vida são viáveis, não coisas para freaks surtados panfletários ou gente vivendo em bolhas desconectadas da realidade.

A longo prazo, um conta-gotas talvez seja uma arma ainda mais potente que um canhão. Porque é preciso muita sabedoria para sustentar uma atividade irada e radical. Geralmente, suas consequências são muito fortes, consomem todo seu tempo e energia. A maioria de nós ainda está muito envolvida em autopreservação, em querer ser amado e respeitado, em evitar ser incomodado, para ter capacidade de realmente agir incisivamente.

Então, boa sorte com sua família e seus parentes. Boa sorte, enfrentando a solidão extremamente povoada do fim do ano.

Por Eduardo Fernandes

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