A tecnologia é uma religião?

Muita gente gosta de acreditar que não tem uma religião. “Eu sou um agnóstico, não me importo com essas coisas espirituais”.

Hmmm. Sem perceber, a mesma pessoa pode ser mais devota, mais carola, que muitos religiosos assumidos. Quer saber como? Vamos lá.


Parece que, ao longo do século 20, nós perdemos um pouco da capacidade de reconhecer o que, afinal, é ser religioso.

Podemos achar que uma pessoa religiosa é apenas aquela que “acredita em Deus” ou em “um poder sobrenatural, superior”.

Mas essa é só a ponta do iceberg. Religião também é um hábito mental complexo.

A seguir, eu vou tentar mostrar como esse hábito reaparece na nossa relação com a tecnologia.


Vamos começar com o fanboyismo. Ele é uma espécie de versão secular do hábito dos cultos e seitas.

Você se lembra da época em que as pessoas faziam fila pra comprar um novo iPhone?

Há apenas alguns anos, muitas as pessoas entravam em dívidas, sofriam, passavam fome (ou melhor, jejuavam), não dormiam, tomavam chuva apenas pra ter a oportunidade de consumir em primeira mão um aparelho que era tido como um símbolo de status social.

Hoje em dia meio que rimos dessa atitude. Mas mantemos o hábito. Ainda nos apoiamos em certas empresas para desenvolver autoestima, além do nosso sentimento de pertencer a uma comunidade e de estar ligado a algo “superior”. Da Marvel a Tesla, precisamos de referências.

Os fanboys não se contentam em comprar produtos. De alguma forma, precisam defender a marca. E criticar concorrentes também é um jeito de se auto-afirmar.


A empresa Suprema, a Tecnologia Criadora nem precisa ajudar seus fiéis. Pelo contrário, pode parecer “um ser” indiferente, ditador, misterioso ou até maldoso. Os fãs encontrarão jeitos de amá-la e de justificar “seus atos”.

A Apple pode ser acusada de mafiosa, o Google de monopolista, o Facebook de apoiar a extrema direita, as redes sociais de usar técnicas antiéticas pra fazer dinheiro. Mas nós nos sentimos dependentes dessas tecnologias, achamos um jeito de justificá-las.

Não conseguimos acreditar que podemos viver sem elas. Acreditamos que nossos negócios seriam punidos, nossos amigos sumiriam, não conseguiríamos mais nos comunicar e nos organizar. É um medo de cair fora da graça, do privilégio da Suprema Tecnologia.


Mas há ainda alguns outros hábitos religiosos que migraram pra nossa relação com a tecnologia:

  1. Reuniões periódicas de auto-afirmação e celebração. Por exemplo, conferências, eventos, lançamentos de produtos. Lugares onde os membros do culto se encontram física ou virtualmente pra inspirar uns aos outros e compartilhar valores comuns.
  2. Líderes carismáticos (vivos ou mortos), os quais demos cultuar, citar, interpretar e analisar. Tipo Steve Jobs, Elon Musk, ou até líderes políticos que, ao usar a tecnologia, se tornam produtores de conteúdo e depois entertainers, celebridades. E aí podemos odiá-los, amá-los, acusá-los e defendê-los.
  3. Conceção de bênçãos. Por exemplo, o surgimento de produtos considerados inovadores, “disruptivos”, divisores de água. O culto da nova versão e da inovação. Esperamos que uma força maior tecnológica apareça um dia e resolva parte dos nossos problemas, tire nosso sofrimento e traga a tão amada conveniência.
  4. Recriação da nossa história. Olhamos pra trás e recriamos nossas narrativas. Por exemplo, a época “bárbara” antes da internet. O imenso progresso que temos hoje com ela. E a bem-aventurança que virá quando conseguirmos usá-la corretamente. Nós tentamos ofuscar a complexidade da nossa relação com a tecnologia e apenas classificá-la no simplismo de “melhorou” ou “piorou” nossa vida.
  5. E, pra não nos estendermos demais, vamos parar no simbolismo. Assim como nas religiões tradicionais, a tecnologia também usa imagens, logotipos, música e a repetição constante de certos slogans pra definir a identidade de um determinado grupo. Antigamente, os papas patrocinavam estátuas, catedrais, pinturas. Hoje as corporações usam logotipos, jingles, parques temáticos, grandes lojas e o marketing em geral.

É claro: estou longe de ser o primeiro a dizer que direcionamos nossos hábitos religiosos pra tecnologia. E, certamente, não sou aquele que melhor expôs essas ideias.

Mas minha tentativa aqui é tentar criar – pelo menos pra mim mesmo – uma visão um pouco menos irracional a respeito da tecnologia.

Agora: o maior desafio ainda está por vir. Com o desenvolvimento da Inteligência Artificial, dos algorítimos e da vigilância tecnológica, aos poucos nós estamos automatizando o gerenciamento da nossa religiosidade secular. Que consequências isso trará? Vamos ver.