Alucinações musicais

Hoje acordei 5 minutos antes do despertador tocar. Quer dizer, antes dele tocar “fora” da minha mente, porque soou antes, “dentro” dela.

Não sei se você me entende.

É um contrato um tanto maluco: a mente da vigília programa um aparelho (supostamente confiável) pra garantir que a mente adormecida (supostamente desobediente) cumpra certas metas.

Porém, a segunda se mostra mais eficiente: acorda ligeiramente antes e ainda usando a música do aparelho. Toma. “Eu não preciso desses chips, fios e códigos. Toco música e mantenho a pontualidade”.

Seria uma espécie de vingança contra o Ditadura da Mente da Vigília? Essa que, em nossa sociedade, leva todo o crédito, recebe todo o apoio e desfruta de uma respeitabilidade nem sempre justa (porque boa parte dos nossos insights e aprendizados ocorrem durante o sono ou por meio de processos mentais inconscientes)?

Não sei se dá pra chamar esse “despertador mental” de sonho. Talvez seja uma espécie de alucinação musical – o que, obviamente, remete ao incrível livro do neurocientista Oliver Sacks.

Seja lá o que for, num mundo tão deslumbrado com a tecnologia “externa”, chega a ser engraçado quando somos relembrados das tecnologias “internas”, que possuímos como espécie. Por que elas sempre parecem um tanto assustadoras, não-lineares, impossíveis de serem totalmente domadas e transformadas em produtos.

Enfim, será mesmo que os aparelhos são tão mais eficientes do que os comportamentos?