Aquecimento Mental Global

Transcrição do episódio do podcast Monólogo Estéreo. Links e show notes no decorrer do texto.

Uma das primeiras coisas que a pessoa aprende ao praticar meditação é que tudo o que você experimenta na sua vida deixa um rastro, uma espécie de resíduo.

Vamos começar por um exemplo mais fácil.

Você briga com alguém. Depois, fica muito difícil fazer outra coisa, porque a mente continua a processar o bate boca de outros jeitos, digamos, mais sutis, formulando vários pensamentos obsessivos ou monólogos interiores: “estou certo, o outro está errado” ou “será que eu deveria ter dito aquilo?”. Por vezes, acontece um diálogo ou até quase que um filme do Kubrick na sua cabeça.

O fato é que a briga tem um pós-processamento. A coisa continua durante um tempo, influenciando o resto do seu dia. Ou até mesmo sua vida inteira.

Esses são os resíduos cognitivos, que, em casos como esse, são muito visíveis. Mas eles aparecem (e são criados) a todo momento, em lugares menos óbvios.


Não sei se você já passou pela experiência de ter que escrolar na internet durante várias horas do dia e depois surgir uma espécie de imagem na sua mente daquele movimento contínuo de textos e cliques.

Você não lê ou vê o conteúdo. Só percebe o movimento e cenas vagas. Às vezes, isso surge durante os sonhos: você acorda meio agitado e com aquela sensação de que a mente continua escrolando, embora você esteja bem longe do computador.

Eu não moro em centros urbanos há mais de 12 anos, mas, ainda hoje, sonho com metrô – pelo menos uma vez por semana. Essas são as memórias, que nunca ficam estáticas na mente. Elas são continuamente recombinadas, recontextualizadas e alteradas. E não faltam literatura, ciência e religiões estudando o fenômeno.


Mas os resíduos cognitivos são um processo ainda mais sutil e contínuo. E é isso que a meditação mostra claramente.

Quando você se senta pra meditar, você se desengaja da aceleração das suas atividades cotidianas e começa a perceber sua aceleração interna.

De modo geral, você nota que, mesmo quieto, sentado numa almofada, o fluxo das suas ocupações e preocupações ainda continua.

Na verdade, eles sempre estiveram ali, mas você não enxerga o resíduo cognitivo porque está intensamente distraído pelos seus hábitos e tarefas.

Como eu estava dizendo antes, mesmo pra quem não tem paciência pra meditar, os resíduos continuam influenciando a experiência cotidiana. E, às vezes, a gente consome e se envolve com práticas e conteúdos que se acumulam nas nossas mentes como resíduos tóxicos.


Quem sou eu pra dizer o que é tóxico na sua vida. Eu só sei o que é na minha. E, quer saber? As toxinas estão ali, escondidas nas coisas de que mais gosto.

Por exemplo: nas interfaces viciantes de programas (não só nas redes sociais), no ceticismo, sarcasmo e truculência de comédias que assisto (tipo o desenho Ricky & Morty), no meu relacionamento com a informação (que, aqui e ali, vem contaminada com um desejo de ser e parecer esperto, de me sentir superior às outras pessoas), nas onipresentes estatísticas que permeiam a internet hoje em dia (números de cliques, de likes, de assinantes etc.)… todas essas coisas produzem uma ansiedade sutil.

É como quando você assiste a um filme que tem uma boa montagem e uma boa trilha sonora: essas coisas estão totalmente manipulando sua experiência, completamente influenciando sua experiência do filme, mas você nem percebe, porque está engajado e imerso na narrativa.


E é por isso que surgiram autores como o dramaturgo Bertolt Brecht, com sua ideia de Efeito V, o efeito de distanciamento ou estranhamento: são estratégias narrativas que tentam tirar o público da passividade, tentam evitar que ele se identifique com a narrativa de um jeito inconsciente, sem crítica. Esse tipo de técnica é o ganha pão de cineastas como o Charlie Kaufman e de David Lynch.

Eu incluiria: o público precisa perceber que está alucinando e sendo manipulado.


A meditação tem um elemento de Efeito V, de quebrar a quarta parede da sua realidade. Mas ela vai muito além disso, porque mostra a mecânica do pensamento e da percepção: mostra o quão caóticas e não lineares são as nossas engrenagens de pensamento.

E aí os resíduos cognitivos ficam muito evidentes. O que nos dá a oportunidade de criar uma ecologia cognitiva.

Ou seja: entender que, muitas vezes, por exemplo, ao escolher consumir certos conteúdos, apoiar certas marcas ou aceitar certas lógicas de uso do conhecimento, estamos poluindo nosso próprio ambiente mental. E, consequentemente, ajudando na poluição do resto do ambiente.

Faz sentido pra você?

Trilha sonora

Metek & Zreen Toyz, no Free Music Archive

Cambo – Coffee

Kurt Weill & Bertolt Brecht – Pirate Jenny (por Lotte Lenya)