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É bom ser o rei

Ou a nova desculpa esfarrapada: "ninguém me critica".

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Cena do filme A História do Mundo, Parte 1.

Dia desses, um amigo me encaminhou o seguinte tweet do investidor Chris Sacca:

Um dos maiores riscos da riqueza / poder é não ter mais ninguém ao seu redor que possa revidar, dar feedback sincero, sugerir alternativas ou simplesmente dizer que você está errado. Uma visão de mundo cada vez menor combinada com isolamento intelectual leva a merdas sem-noção.

O bilionário afirma que seu comentário refere-se a Elon Musk, claro. Mas também a si mesmo.

Tadinho, ninguém para corrigi-lo.

Num primeiro momento, meu reflexo foi concordar. Afinal, quando você assume posições de poder / riqueza / fama, tende a se “embolhar”, a cercar-se apenas de puxa sacos e de todo tipo de falsos-amigos. E isso pode levar a uma certa onipotência, no estilo “é bom ser o rei”, do clássico filme A História do Mundo – Parte 1, de Mel Brooks.

Porém, o próprio tweet de Sacca parece ser uma visão obstruída pelo privilégio. É tipo soberba humilde — lembrando que minha crítica aqui é para a lógica cognitiva e não para Chris Sacca.

O que eu quero dizer é o seguinte: Elon Musk e outros oligarcas têm uma legião de críticos. Seria necessário até distribuir senha para dar conta do SAC dos bilionários.

E até mesmo os exageros dos seus seguidores, fãs e apologistas poderiam servir como um feedback bem instrutivo.

Quer um exemplo? Imagino que você tenha visto a imagem abaixo.

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Você diria que faltou alguém para “dar a real” ao Patriota do Caminhão? Ou que ele mesmo, no calor do momento, não teve pelo menos um segundo de lucidez? “Espera. O que estou fazendo aqui?”

Algo provavelmente bloqueou a influência desse micro caos de pensamento libertador.

Minha hipótese: o entusiasmo de perseguir um objetivo, de sentir-se especial, aliado ao fluxo de tarefas necessário para manter essa fantasia. É uma ocupação tão infindável, rápida e contínua, que você para de ouvir certos “sinais do universo”.

Ou seja: é o velho fanatismo. Bloqueia-se qualquer feedback que tente questionar aquele personagem e sua jornada do herói.

Assim, o tweet de Sacca soa a “alegar ignorância da lei”: “ninguém me avisou, eu não sabia”. A culpa é da vítima.

Ora, qualquer série da Netflix sobre Império Romano consegue mostrar que buscar poder / riqueza / fama causa problemas enormes para si e para os outros. Nem é preciso evocar Lacan, estóicos, etc. Quantos filmes, documentários, livros, religiões e mitos apontam para as consequências da ambição?

Mas a sociedade capitalista se foca exatamente nas técnicas para ampliar, otimizar e quantificar a busca incessante pelo “crescimento”. A luta contra o fantasma da mediocridade, a desconfiança da coletividade, o individualismo e a competição.

Estamos tão envolvidos com as minúcias e dramas de manter esse sistema ideológico que nos jogamos em frente dos nossos próprios caminhões. Diariamente.

Sempre há alguém para criticar essa soberba: no mínimo o corpo e o sentimento de vazio quando temos que cumprir certas tarefas. Porém, em geral, estamos ocupados demais para ouvir essas vozes dissonantes.

Pior: cultuamos aqueles que as ignoram.

E num nível tão profundo que achamos perfeitamente normal que alguém queira ser bilionário. Autocrata também? É. Tudo bem, faz parte.

Esquisito é aquele que não tenta, que “desiste”. Que alega: “Sim. Eu sabia. Muita gente me avisou que poder / riqueza / fama podem ser um problema gigantesco”.

Por Eduardo Fernandes

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