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Eu me demito!

Qual emprego estamos quiet quitting?

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Cena da Porta dos Fundos, no seu ambiente natural, o YouTube.

Dia desses, o algoritmo do YouTube me recomendou um vídeo da Porta dos Fundos. Nele, um casal critica uma filha adolescente. Ela teria optado por estudar e encontrar uma profissão “comum”, em vez de se tornar uma YouTuber ou TikToker.

Interessante. Lembrei do atual debate sobre quiet quitting, que, em tese, já seria uma resposta à Hustle Culture.

Vários termos estranhos que fazem parte de um mesmo fenômeno: a perda das fronteiras entre o que é trabalho e o que é… o resto da vida.

A diversão virou Entretenimento. Assim, é produzida e consumida em ritmo industrial. Tornou-se um fluxo contínuo de metas a cumprir, conscientes ou inconscientes.

Se pensadores do século 19 criticavam a degradação humana de ter que seguir o tempo da linha de produção, hoje acrescentamos outras: scroll infinito, swipe do TikTok, métricas de redes sociais, etc.

O Entretenimento domesticou, disciplinou e controlou a diversão, transformou o prazer em trabalho. E plantou a ideia de que o trabalho tem que ser prazeroso.

Então, acabamos fazendo jornadas duplas, triplas e simultâneas. Por exemplo, quando alguém desliga a câmera e segue a reunião on-line enquanto joga videogame ou escrola nas redes sociais. E desenvolve burnout múltiplo.

Home office virou o símbolo maior dessa ausência de fronteiras. O trabalho invadiu tudo, do gerenciamento do pet até do romance. Tudo funciona como uma espécie de emprego.

Então, o que (muitas vezes) acontece quando alguém se torna um praticante de quiet quitting? Não aterriza num vácuo cultural. Na verdade, direciona mais tempo para O Entretenimento.

Ou seja: é uma transferência de patrões. Do Mr. Corporativo para o Mr. Vale do Silício.

Até mesmo quem opta por uma vida supostamente mais simples e rural, muitas vezes já o faz pensando em como divulgá-la no Instagram.

Não se trata de sentir os pés no chão ou o cheiro do mato, mas de construir uma marca, uma identidade gerenciável. Produzir conteúdo. (Será que Thoureau faria videolog?)

Fora que, segundo pesquisas, como estamos expostos a estímulos constantes de dopamina, desenvolvemos um desequilíbrio basal. Ficamos intolerantes ao tédio, nos frustramos facilmente. Precisamos nos manter excitados continuamente.

E, então, surge tanto o fenômeno da hustle culture, quanto o da desmotivação e o quiet quitting. Dois lados da mesma criptomoeda – só para atualizar a metáfora.

Hoje, é interessante reler os textos básicos comunistas e as utopias do século 19 que imaginavam como seria a superação do trabalho. Como funcionaria um mundo em que teríamos tempo livre para artes, filosofia e relacionamentos?

O que surgiu foi o oposto: tudo virou trabalho. Tempo livre se tornou economia de atenção. Home office virou Total Office. Escritório de bolso. Escritório universal.

Aos poucos, perdemos o espaço mental necessário para diferenciar o que, afinal, nos diverte do que é compulsão, síndrome de abstinência e necessidade de escapismo.

O que estamos quiet quitting aqui é a diversidade e a riqueza de ser humano, vivendo num planeta.

Ou algo assim.

Por Eduardo Fernandes

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