Let it Go

No último episódio desta temporada: Warp Zone, aplicativo no qual você pode manipular pessoas. Abertamente e sem dramas morais.

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O Monólogo Estéreo vai fazer uma pausa e volta no dia 29/11.

Transcrição do episódio

Cripto: Chantagem! É isso que estão fazendo comigo! Chantagem.

Esse é Cripto. Sua voz foi modificada digitalmente e nós usamos um pseudônimo pra preservar sua identidade.

Cripto: Sou designer, tenho 28 anos.

No dia 10 de outubro de 2020, ele recebeu um e-mail que dizia:

Cripto: “Assine Warp Zone Plus por U$ 10 mensais e garanta que seus dados continuem privados”. Minha primeira reação foi… o quê? Como assim? Garanta que meus dados continuem privados? O que exatamente vai acontecer se eu não pagar?

Assim como milhares de jovem-adultos da chamada Geração Z, Cripto se cadastrou no Warp Zone, em 2015. O ouvinte deve se lembrar de que, em poucos anos, o Warp era tão comum quanto o Facebook ou o Google. Já em 2016, 1 bilhão de pessoas no mundo todo passavam cerca de 3 horas por dia usando o programa.

Cripto: Era de graça. Vinha da maior empresa de tecnologia do mundo. Você vai desconfiar de uma coisa tipo Gmail? Todo mundo usa, todo mundo tinha que usar.

Warp Zone foi divulgado como a solução pra um dos maiores problemas da humanidade: fazer os outros obedecerem a sua vontade. Ainda que fosse num ambiente virtual, as imagens e sons eram muito, muito realistas.

Cripto: Eu comecei como a maioria dos caras da minha idade na época. Por exemplo, eu tinha uma vizinha que eu queria muito pegar. E, vou te falar, se eu tivesse tentado, talvez até tivesse conseguido. Mas era muito trabalho. Eu não queria ter que lidar com a personalidade dela. E, depois, se funcionasse, talvez ela quisesse tipo namorar ou vir com cobranças… Não. Muito mais fácil warpar ela.

Se você esteve fora do planeta nos últimos 5 anos, “warpar” significa pegar a câmera do celular e gravar pelo menos 10 segundos de uma pessoa sendo ela mesma. O vídeo é lido pelo aplicativo do Warp Zone, que, usando inteligência artificial, gera uma cópia hiper-realista daquela pessoa, dentro do programa. E, lá, você pode fazer o que quiser com ela. Sem quaisquer consequências éticas ou sociais.

É claro: no começo as pessoas usavam pra sexo. A imprensa mais conservadora costumava chamar o Warp Zone de aplicativo de masturbação digital. Mas isso até os óculos de realidade virtual ficarem realmente populares e baratos. As barreiras entre o que era virtual e real começaram a se nublar cada vez mais. E, em alguns anos, o Warp já era utilizado pra tratamento de traumas e até vício.

Cripto: É. Eu também Warpei meu pai. Ele nunca ia discutir comigo porque é que ele me batia ou porque vivia me criticando. Aí, lá no Warp, ele me pediu desculpas, chorou e tal. Foi um momento forte na minha vida. Eu me emociono só de lembrar.


Mas aí as coisas começaram a mudar. Warp Zone passou a ser usado pra simular festas. Em especial depois da pandemia dos anos 2020. As pessoas importavam músicas, filmes e seriados de TV pro aplicativo.

E a Big Tech, dona do Warp, fazia jogo duplo: cerca de 1 terço do seu faturamento vinha da pirataria. Afinal, ela ajudava a ter mais gente circulando por mais tempo no Warp, gerando mais coleta de dados, que levava a mais dinheiro de anúncios.

Os órgãos protetores de copyright também queriam arrecadar sua cota. Então surgiram os strikes de copyright. Os algoritimos detectavam automaticamente que você estava warpando, por exemplo, Billie Eilish ou Miley Cyrus e interrompiam sua diversão. 3 strikes e seu perfil seria cancelado.

Cripto: Foi isso que aconteceu comigo. Cancelaram minha conta porque eu tava warpando uma menina ao som de Let it Go.

Let it Go? Aquela música do Frozen?

Cripto: É. E daí eu fui criando outras contas até que percebi que a Big Tech tinha mudado todo o programa, sem aviso nenhum. Mudaram os logos, as cores da interface e até o diabo do nome: virou Warp Zone Space. E aí meu plano ilimitado não era mais ilimitado.

A mudança no Warp foi notícia em toda a imprensa especializada: de uma só vez, a Big Tech resolveu mudar o modelo de negócio.

Cripto: E agora isso: “assine o plano plus e garanta que seus dados continuem privados”? Se os caras divulgarem o que eu fiz ali dentro, vão me causar sérios problemas.

Segundo ativistas como, Dory Coroctow, os dados no Warp nunca foram privados. Em um artigo pra a revista Focus, Coroctow afirma que o Warp segue a mesma estratégia de muitas outras gigantes de tecnologia: conquista os usuários pela ilusão da conveniência, pelos aplicativos aparentemente gratuitos, e, cedo ou tarde, envia a fatura.

Cripto: “Agora eu recebo esse e-mail com essa lenga-lenga de marketing, mascarando o quê? Chantagem?”

Assim que viu o e-mail, Cripto correu pra deletar sua conta, antes que alguma tragédia acontecesse. Mas, agora, não conseguia mais.

Cripto: Vasculhei todo o aplicativo e não encontrei um jeito de deletar o meu perfil.

Depois de tanto tempo tentando evitar sair do Warp, Cripto agora não consegue sair. Está frozen. Não há como “Let it Go”.