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O Mutante estagnado

Como os livros sobre mudança de hábitos contam apenas um lado da história.

No episódio de segunda-feira do MonoEstéreo, eu fiz um resumo do livro “Como mudar: As novas pesquisas para superar desafios e transformar nosso comportamento”. E, conforme ia lendo o texto, sentia-me um tanto ridículo. Ouvir a mim mesmo listando aquelas técnicas, deixava ainda mais evidente o enorme esforço, a quantidade de tempo e de energia que gasto com essa obsessão por me transformar.

Não que essa energia intervencionista seja inútil. Mas a verdade é que a mudança sempre está aí, batendo à nossa porta. Não há como deixar de mudar.

A questão é atender às diversas demandas conflitantes, as diferenças entre as narrativas competindo entre si. Sou familiar, trabalhador, feliz de Instagram, esperto de Twitter, frágil de terapia etc. etc. Todas as identidades sempre pedindo ajustes e checagem de coerência.

No fim do dia, parece que fomos enquadrados pela autopolícia. Abaixo a autoditadura! Será que posso descansar da plasticidade forçada? Apenas um dia na semana.

Por que os livros insistem em me dizer que estou estagnado? Por que preciso de mais uma técnica para confirmar que estou me transformando do jeito mais eficiente?

É a velha e boa tensão do controle. Uma vez que você tenta se submeter a ela, precisa entrar numa jornada, num fractal de autocorreções até mesmo do próprio conceito de controle.

Então, você mantém esse nervosismo de fundo, essa ansiedade. Dukka, como se diria no budismo. Ou seja: definitivamente, esse não é um problema novo na história.

A parte mais engraçada é tentar gerenciar a tensão mutante via estatísticas, wereables, smartphones, técnicas científicas, coaches e redes sociais.

Nós passamos muito, mas muito tempo tentando mudar conscientemente e evitar mudar inconscientemente. É muito propósito para pouco tempo. Muita divisão para pouco self, muita quantificação para pouca atenção.

E isso fica cada vez mais trabalhoso à medida que quase todos nos transformamos em empreendimentos / empreendedores: afinal, qual é o meu nicho (pense num perfil de Tinder, por exemlo)? Quais são os meus riscos? Quais são os planos de crescimento?

Sabemos que sempre estamos sujeitos à entropia: hábitos se acumulam e se dispersam, traumas e conquistas vêm e vão. Assim, precisamos viver reajustando narrativas para tentar “controlar” o processo. Tudo para manter esse mito do mutante estagnado.

Nos anos 1990, era comum ver filmes independentes e livros escarnecendo desse fenômeno. O personagem vivia uma existência inteira cheia de restrições e procedimentos. De repente, seus planos eram frustrados por algum evento humorístico e aleatório. O escritor Joca Reiners Terron, por exemplo, tinha um livro que se chamava “Sonho Interrompido por Guilhotina”. Como ser mais conciso?

É claro que, quase sempre, ajustes são necessários. Mas a verdade é que não entendemos exatamente como sistemas complexos funcionam. Nós cultuamos a mudança consciente. Mas ela é, em si, parcialmente inconsciente. Muitas vezes, o intervencionismo leva a mais estagnação e o conservadorismo leva à revolução. Como sapiens demens estamos sempre confusos por vieses.

Então, livros como os de Katy Milkman, citado acima, têm um efeito consolador: “você pode! Tente outra vez”. Mas também aumentam a ansiedade, por termos que adotar e gerenciar mais procedimentos, técnicas e atividades. É autoajuda? Sim. Mas também autossabotagem.

Por Eduardo Fernandes

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