Tipo o Tron. Só que no Excel

Antônio acordou assustado. Abriu os olhos, mas sua visão estava completamente nublada. Confuso, tentou dizer alguma coisa, mas a voz não saia. Na verdade, logo percebeu que o resto do corpo também não obedecia.

Sentia um intenso frio e sede. O coração acelerado e a respiração cada vez mais difícil, pareciam manter um ritmo mecânico, industrial.

Se conseguisse mexer o braço, certamente checaria o seu relógio, pra conferir os números da oxigenação do seu sangue e dos batimentos cardíacos.

Mas nada disso era realmente necessário: Antônio sabia, perfeitamente, que estava mal.


Aos poucos, os sentidos e o raciocínio se clarearam o suficiente pra perceber que, provavelmente, ele estava numa cama de hospital.

Ele não deveria permanecer ali: precisava comparecer a uma sucessão de reuniões, marcadas pras 3, 3h45, 4h15 e depois 6h da tarde. Às 7h, teria um jantar com a esposa, que deveria durar, no máximo, 50 minutos, porque ele ainda precisava passar na universidade, na qual teria mais uma aula de 1h30 e depois teria que correr de volta pra conseguir dormir exatas 8 horas.


A respiração pesava cada vez mais. Antônio se via obrigado a pensar sobre ela.

Mesmo nessa situação de confusão e paralisia, sua mente continuava a fugir pra mesma coisa de sempre: números.

Afinal, era isso que ele fazia da vida, não é? Pensar em números.

Não é o que todos fazemos? Horários, estatísticas em programas de redes sociais, senhas, códigos de cartão de crédito, salários e investimentos, contas a pagar, dias da semana… sua vida era uma sucessão de dígitos.

Até mesmo as explicações de como a vida funciona, na física, na química, na economia e até na psicologia, tudo passa por números.

De modo que não é nem mesmo necessário dizer qual é a profissão de Antônio: ele compartilha conosco uma certa escravidão aos números.

Ainda assim, só pra informar: Antônio tem 50 anos, 2 filhos, mora no apartamento 22, bloco 3 e, para o governo, ele se chama 24 322 645-2. E esse é o RG, o CPF está sujo no SPC, porque Antônio se perdeu nas contas de taxa de 2.3% de juros, no ano de 2017.


(Máquina de monitoramento cardíaco apitando.)

O pânico tomava conta de Antônio. A respiração ficava cada vez mais curta e ineficiente. 1, 2, 4…

De repente, notou que estava cercado por, no mínimo 4 pessoas, com 2 aparelhos desfibriladores, carregados em 300 joules e que falavam alto, talvez acima dos 70 decibéis

(Choque.)

Antônio não conseguia mais pensar claramente. Somente sentia medo. E passava por vários tipos de alucinações com números. Pra não perder a sanidade, fixava o olhar no jaleco branco de um jovem, no qual via uma etiqueta com uma combinação de dígitos. Seria seu código de licença médica?

(Choque. Vozes mais nervosas no hospital. Máquina de monitoramento cardíaco apitando. Som do aparelho registrando o óbito.)


Uma escuridão nunca antes vista tomou conta da experiência de Antônio. E um silêncio completo.

Mas isso durou apenas a fração de um segundo.


(Explosões assustadoras.)

Antônio – ou seja lá como poderia se chamar aquilo – via luzes tão absolutamente fortes e claras, que pareciam verdadeiras lâminas afiadas. Formas que ele nunca sequer imaginou existir. Paradoxângulo, quantumlátero, sei lá. Aquilo que ele achava que seriam as leis da física se dissolviam sem qualquer cerimônia.

Antônio sempre foi um fervoroso crente no otimismo materialista: “quando eu morrer, acabou, não haverá mais nenhuma percepção, tudo vai se apagar, como se tivessem me desligado da tomada”. Mas, agora, questionava se estava vivo ou morto. Pior: há quantos minutos estava nessa situação aterradora? Quanto tempo isso duraria?

Quanto custaria a conta do hospital?


Antônio sentia puro desespero. Ainda que talvez estivesse morto, continuava temendo sofrer.

E, assim, uma sucessão alucinante de pensamentos desconexos surgiam ininterruptamente.

Num momento, Antônio se arrependia dos minutos perdidos na TV, no YouTube, em reuniões e em objetivos inúteis. A somatória de inúmeros segundos, que escoaram uma vida inteira.

Puro arrependimento.

Em outro, sentia a nostalgia de ter uma identidade: de ser alguém, de ter um corpo qualquer, de estar numa situação na qual ele, pelo menos, tivesse alguma ideia de como lidar.


Foi quando Antônio enxergou uma leve e confortável luz a sua frente.

Talvez fosse a salvação de que muitos religiosos falam.

Mas por que algum ser superior teria compaixão dele? Ele viveu sua vida cultuando números. Será que Deus seria mesmo uma espécie de equação?

Seja lá o que aquilo representasse, seja lá a qual partido fosse filiada, a luz era a única esperança disponível. Ainda sem saber como, Antônio (ou o que sobrou dele), voltou sua atenção pra ela.

(Efeito de transição. Silêncio.)


Estranhamente, agora Antônio sentia-se num ambiente familiar. Olhou pros lados e notou que parecia estar contido numa espécie de caixa completamente branca.

Tentou esticar os braços e tocar o ambiente, mas notou que algo em seu corpo era diferente. Ele não poderia mais dizer que possuía um braço. Aquilo parecia mais um simples traço preto. Pensando bem, ele também não tinha mais cabeça.

Que tipo de entidade, então, estaria experimentando aquelas sensações? O que, afinal, seria ele?

Antônio notou que o tal traço preto era a parte de cima do seu, digamos, corpo. A seguir, a linha descia em diagonal e depois se curvava pra trás numa espécie de semicírculo. Ao seu lado, viu algo parecido com uma vírgula e uma outra forma, na qual um círculo grande servia de base pra outro, menor.

De repente, o sentimento de familiaridade se tornou ainda maior: de alguma forma, ele reconheceu que – veja bem – agora ele ERA o número 3,8.

De repente, não fazia o mínimo sentido pensar a si mesmo como um ser humano. Aliás, o que diabos seria um “ser humano”?


Bom, eu sou um narrador onisciente, mas não sou onipotente. Então, terei que distorcer um tanto as coisas pra que a história fique mais compreensível.

É que Antônio não tinha mais uma consciência, pelo menos não do jeito que nós humanos estamos acostumados a defini-la. Mas tinha um senso de propósito: um motivo pra existir.

Sentia-se pertencente a uma estrutura, por assim dizer, social. Que eu poderia descrever assim: imagine uma tela dividida em colunas e linhas. Cada uma delas contém um número, que se relaciona com os outros.

No alto dessa estrutura, vivem números ou letras que parecem ser os líderes: elas fornecem significados aos números de baixo. Por vezes um soma o outro, por vezes subtrai etc.

Algumas dessas caixas, ou “células”, acabam sendo selecionadas por um poder superior invisível. Mercado? E, assim, mudam de cor e de significado. Às vezes, um misterioso símbolo de uma cruz voa por cima dessas células.


Se tivesse sentimentos como os humanos, talvez Antônio, ou 3,8, dissesse que sua existência fazia sentido: finalmente, agora ele era um número. Não precisava ser nada além isso.

Não precisava mais ficar aflito por ter que viver escravo dos números num relógio, numa agenda, em estatísticas, em salários, em códigos etc. Não precisava mais correr atrás de outros significados com letras e palavras.

Não temia ser mais um tijolo no muro. Podia simplesmente existir como mais uma informação numa planilha.